Agradecemos à revista Backstage que permitiu a publicação na íntegra desta matéria sobre Kleiton & Kledir, que saiu na edição n.o 53, de Abril deste ano. Você pode adquirir este e outros números da Backstage ou fazer sua assinatura diretamente na Internet. Basta clicar aqui!

Para quem estava com saudade deles, falta pouco. Kleiton & Kledir estão voltando com disco novo. Backstage foi atrás desta que é uma das mais queridas duplas do Brasil e a encontrou em franco processo de produção de seu mais novo disco de carreira. Com repertório montado sobre o cancioneiro do Rio Grande do Sul, o álbum foi gravado no estúdio Impressão Digital, no Rio.

Luiz Alexandre Coelho

ul. Mais que a região de origem de Kleiton & Kledir, esta palavra é a bússola que rege a obra e a própria vida da dupla. Agora mais do que nunca, já que o novo disco dos dois irmãos investe na música regional gaúcha. Não à toa, Sul é o nome mais cotado para batizar o álbum. "É um título abrangente e indicativo de um monte de coisas que têm a ver conosco. Este é um disco especial, diferente de tudo que já fizemos até hoje. É um disco radicalmente gaúcho, só com temas clássicos do cancioneiro do Rio Grande do Sul", conta Kleiton.

O projeto começou a virar realidade em novembro do ano passado, com uma pré-produção que buscou as definições estéticas que orientariam o disco. A idéia que agora se concretiza, no entanto, já povoava os sonhos de Kleiton & Kledir há algum tempo. "Um dia em reunião com Max Pierre, diretor artístico da Polygram (agora Universal), ele me falou entusiasmado sobre essa idéia. Eu saltei da cadeira, pois há muito tempo nós temos vontade de fazer um projeto assim. A partir daí tudo foi se encaixando", lembra Kledir.

Com o término das gravações em fevereiro, foram quatro meses de trabalhos, só interrompidos durante as festas de fim de ano. Quem assina a produção do disco é Mazzola, o que, segundo Kledir, "já é uma garantia de qualidade". Ele vai além nos elogios ao produtor e divide com Mazzola os louros pelos maiores sucessos da dupla nos anos 80. "Mazzola tem uma enorme experiência com a música brasileira e internacional e é um privilégio tê-lo ao nosso lado. De certa forma, é o resgate de uma parceria, já que na década de 80 os grandes sucessos de Kleiton & Kledir foram feitos junto com ele", afirma.

Para que o sucesso de mais esta parceria seja facilitado, estão sendo utilizadas todas as possibilidades que as modernas tecnologias de gravação oferecem. "Estamos gravando com duas máquinas Studer de duas polegadas, o que dá 48 canais. São gravações analógicas com Dolby SR em todos os canais. É a melhor opção possível, pois temos a qualidade insuperável do analógico com a eliminação de ruído igual ao sistema digital. Além disso, o estúdio tem uma mesa Sound State Logic (SSL0 e um monte de periféricos de primeira linha", avalisa Kledir.

A dupla festeja também a qualidade de toda a equipe que participa da produção do disco. "Estamos muito bem acompanhados e não só em termos técnicos. Marcos Saboya é o engenheiro de gravação e para a mixagem temos também a presença do Jorge Gordo. Além do Mazzola (foto ao lado, com a dupla), é claro, com a batuta na mão. Como dizia minha amiga Xodó, enquanto cozinhava: ‘Só tem coisa boa, só pode ficar bom!’", compara Kleiton. Kledir concorda: "Gravação é um trabalho de equipe e é preciso entender que um time bem entrosado é que faz um grande disco. É a soma de vários talentos", completa.

Se a comissão técnica é de primeira, o time que entra em campo para gravar não fica atrás. Kleiton & Kledir dão conta de vozes e violões, e Kleiton ainda ataca com um violino. Junto deles, dois outros músicos tiveram participação fundamental na estrutura básica do álbum: o argentino/baiano Ramiro Muzzoto, nas levadas e percussão, e Julinho Moreira, nos arranjos e acordeon. Alén desses dois, uma verdadeira seleção entra no álbum através de participações, como conta Kledir: "de Porto Alegre veio Luiz Carlos Borges, um dos melhores gaiteiros (acordeon) que o Rio Grande já viu. De Nova York veio Bakhiti Kumolo, baixista africano que já tocou com Paul Simon e Sting. Maravilhoso, deu um swing especial ao disco, além de mandar um rap em dialeto africano". Kleiton completa a escalação: "de Buenos Aires trouxemos o genial Pedro Aznar (baixo e violões), com quem já fizemos alguns trabalhos anteriores, como nosso disco passado e gravações com Mercedes Sosa. Pedro é um multinstrumentista, compositor e cantor de qualidades raras que acaba de ser gravado por Gal Costa e já fez discos antológicos com Charly Garcia e Pat Metheny (dois Grammys). Tivemos ainda o Ricardo Silveira nas guitarras e um super naipe de sopros, cordas e coro", revela.

e na prática tudo foi facilitado por grandes músicos e técnicos competentes, a escolha do repertório deu trabalho para a dupla. "Foi bem complicado porque resolvemos escutar a opinião de amigos e estudiosos para estabelecer quais seriam os 14 grandes clássicos da música gaúcha. Juntamos um total de 50 canções e as opiniões mais desencontradas possíveis", conta Kleiton. "Depois de muita conversa, chegamos à conclusão de que o repertório deveria traduzir a nossa relação afetiva com a música do Sul. Talvez algumas escolhas sejam um pouco pessoais, mas acho que assim, o disco sai verdadeiro. É a nossa visão desse universo musical e não tem a pretensão de ser ‘a versão definitiva’", conclui Kledir.

A elaboração dos arranjos teve duas fases distintas. Na primeira, a dos arranjos de bases, o trabalho foi coletivo, contando com a prticipação dos próprios Kleiton e Kledir, do produtos Mazzola, além de Julinho Teixeira e Ramiro Muzzoto. A Segunda etapa, que inclui cordas e metais, ficou a cargo de Julinho Teixeira. Isso não significa, no entanto, que Kleiton e Kledir não tenham dado palpites. "Eu e o Kleiton somos muito metidos, o que significa que a gente acompanha todo o processo, desde a criação das levadas até a mixagem final. Por um lado, é muito mais cansativo, mas dá um resultado personalizado", justifica Kledir.

Tais arranjos tiveram como linha-mestra a intenção de ressaltar o caráter regional das composições. "Partimos da idéia de usar instrumentos que tenham a ver com a nossa cultura musical, como acordeon, violões, violino, bombo legüero, etc. E também os metais que recebemos da influência da colonização alemã. É um disco sem teclados e sem bateria, mas com muita percussão. Ele é dançante e ao mesmo tempo acústico, uma tradição que trazemos desde os Almôndegas", avalia Kleiton.

Com tudo isto, o que os fãs podem esperar deste novo disco de Kleiton e Kledir? Eles garantem que o álbum é um passo adiante com relação a tudo o o que a dupla fez durante toda a carreira. "Há uma busca cada vez mais radical no sentido de se encontrar um som autenticamente gaúcho e contemporâneo, uma Tchê Music ou seja lá o nome que vai se dar a isso. Na realidade, é o que nós viemos fazendo a vida inteira e tenho a sensação de que estamos cada vez mais perto", aposta Kledir.

Colaborou Maria Fortuna
 
 

Aprendi a Cantar antes de Falar
Entrevista com Kleiton & Kledir

Quando e como vocês começaram a se interessar pela música?

Kleiton: O meu interesse musical começou quando tinha três ou quatro anos de idade e ganhei um violino miniatura lindo e fiquei apaixonado pelo novo instrumento. Aquilo me marcou definitivamente.

Kledir: Não lembro de quando tudo começou. Meu pai brincava dizendo que eu aprendi a cantar antes de falar. Acho que o rádio foi importante (não havia televisão naquela época) e também nosso pai que gostava de tangos. Quando tínhamos cinco e seis anos, eu e o Kleiton fizemos nossa primeira apresentação pública cantando Maringá, numa festa de São João na nossa escola. 

Kleiton: Estamos fazendo música desde criança. Primeiro como parte de complementação educacional, depois como hobbie, e depois como realização de vida. Até descobrirmos o que hoje nos parece óbvio, uma inevitável carreira artística, passamos por muita coisa, inclusive faculdade de Engenharia.

A família de vocês é uma família de músicos?

Kledir: Nosso pai esra engenheiro e a mãe professora. A família sempre foi mais ligada à área de educação. Somos seis irmãos, todos muito musicais, mas além de nós só o Vitor (Ramil) "pegou em armas". A Branca virou nossa personal manager e os outros dois, Kleber e Kátia, são psiquiatras. Afinal, alguém tinha que cuidar dessa cambada de malucos.

Quando começou a carreira da dupla?

Kleiton: Profissionalmente começamos com os Almôndegas, em 1975. Era uma banda essencialmente acústica, com a qual gravamos quatro discos e descobrimos todos os códigos da profissão.

Kledir: Kleiton & Kledir aconteceu meio por acaso pois não tínhamos a intenção de criar uma dupla. No final de 79 fomos juntos ao Festival da Tupi defender Maria Fumaça. Aí a coisa não parou mais. Foi só botar lenha na fogueira. Em 80 saiu o primeiro disco de Kleiton & Kledir e embarcamos numa excursão por todo o país com o MPB-4, que acabara de gravar nossas canções Vira virou e Viração.



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